Ainda não tinha abordado o assunto sobre a mais recente operação em Portugal denominada "Fair Play" e que começou por "atacar" o grupo de adeptos NN. Independentemente do clube que apoiam, há algumas coisas mal explicadas nesta operação, mas não querendo entrar por caminhos adversos, e tendo por base o que já li em vários pontos de informação, vou apenas citar as frases que acho relevantes da melhor peça que até ao momento se realizou sobre este problema e que vem na edição de hoje do Público.
"...o grupo, que se afirma de adeptos do Benfica, embora sem qualquer apoio por parte da direcção do clube, diz que o haxixe e as armas apreendidas são contas de outros rosários, em tudo diferentes das motivações que, há 16 anos levaram à constituição da claque."
"Os NN garantem que, por se recusarem a assinar um documento exigido pelo Conselho para a Ética e Segurança no Desporto, nem sequer são agora uma claque. "Somos apenas um grupo que se junta para ver os jogos e para apoiar o Benfica. Mas não temos apoio da direcção e nem sequer é verdade que tenhamos um espaço no estádio cedido pelo clube"
"Há 16 anos, quando os NN surgiram, após uma cisão na primeira claque benfiquista - os Diabos Vermelhos -, havia um rosto visível, uma chefia. Em 1996, depois da morte, no Jamor, de um adepto do Sporting, com um very-light lançado por um acompanhante benfiquista (entretanto fugiu da prisão e ainda se encontra a monte), o principal dirigente da claque foi preso (por posse de droga e armas) e alguns membros foram interrogados."
"Vamos dizer que não nos defendemos quando somos atacados por outros?"
Os "outros" são os membros das claques do Sporting e do FC Porto."
"Entre os adeptos benfiquistas que agora foram indiciados (28 homens e duas mulheres) há mesmo quem entenda que as buscas de que foram alvo têm "marca verde", que é como quem diz do Sporting. Um dos indivíduos que a PSP aponta como um dos principais mentores de actos violentos atribuídos a elementos dos NN terá mesmo estado envolvido, há mais de um ano, num tiroteio na Amadora. Do outro lado estaria um indivíduo que pertence ao grupo "1143", que integra a Juventude Leonina e deve a sua designação à data em que foi assinado o Tratado de Zamora. São nacionalistas e integram, entre outros, Mário Machado, diversas vezes condenado por crimes raciais."
"E para o FC Porto, a cuja claque (os Super Dragões) os benfiquistas apontam o dedo, acusando-os de traficarem droga, fazerem cobranças difíceis e extorsão"
"Temos de perceber a claque como um campo social em que há várias experiências: uns divertem-se, outros querem andar à pancada, outros querem apoiar o clube, outros querem passar droga. É uma realidade complexa, uma sociedade alternativa"
"João Paulo Saramago, chefe da unidade que acompanha as claques em Lisboa, garantia que a implicação de membros de claques em fenómenos de criminalidade e violência é "pontual e individual"
"detecta nas claques "pessoas de todos os estratos socais" e profissões, "desde pessoas licenciadas, com emprego estável, e quadros superiores até ao estivador"
"Mas 27 por cento são universitários e há uma representação residual, na ordem dos dois a sete por cento, de classes médias-altas"
"sempre houve "subgrupos minoritários" dentro das claques dedicados ao tráfico de droga e até com "ligações à extrema-direita", como aconteceu com o Grupo 1143, "que resultou de uma cisão na Juve Leo". Algo que desaconselha uma generalização e que leva Salomé Marivoet, socióloga especialista no estudo da violência no desporto e membro do Conselho para a Ética e Segurança no Desporto, a não retirar particulares ilações da detenção de vários elementos dos No Name Boys. "Em meu entender tratou-se de uma actuação de combate ao crime organizado, dirigida no caso a suspeitos de actos ilícitos ou criminosos cuja presença foi igualmente identificada no seio desta claque"
"Se a criminalidade tem estado a aumentar na sociedade portuguesa, será plausível que alguns dos seus autores ganhem maior visibilidade, quando se encontrem no seio das claques, já que as forças policiais exercem um estreito controlo aos comportamentos e formas de actuação no terreno."
"Já em 1999, questionei a definição dos No Name Boys como uma claque, atendendo a que se tratava de um grupo que recusava qualquer movimento de associação com outras claques e pretendia colocar-se à parte do movimento ultra. Além disso, é uma claque que não tem uma estrutura formal em que possamos identificar um presidente"
"Convém, no entanto, não generalizar. As claques não são um bando de criminosos, mas há criminosos nas claques."
"A ligação à criminalidade é uma faixa minoritária das claques. Não penso que estas detenções marquem um ponto de ruptura. A inserção deste tipo de elementos [ligados ao tráfico de droga] já existia e não só nos No Name. Esta operação não traz nada de novo, mas o caso é um forte indicador de que a proporção deste fenómeno [ligação à criminalidade] é superior nesta claque em particular, embora exista também noutras."